
Dr. Andre Macedo Rocha
Publicado em 29 de maio de 2026
Os medicamentos agonistas do receptor de GLP-1, inicialmente desenvolvidos para tratamento de diabetes tipo 2 e posteriormente aprovados para obesidade, têm demonstrado benefícios terapêuticos que vão muito além do controle glicêmico e da perda de peso. Evidências acumuladas nos últimos anos levaram a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) a revisarem suas diretrizes em 2026.
Estudos cardiovasculares de desfecho como SELECT, FLOW e STEP-HFpEF demonstraram que medicamentos como semaglutida e tirzepatida reduzem significativamente eventos cardiovasculares maiores em pacientes com doença cardiovascular estabelecida, independentemente da presença de diabetes. A redução de risco observada varia entre 20% e 26% para o desfecho combinado de morte cardiovascular, infarto e AVC.
Além dos benefícios cardiovasculares, ensaios clínicos recentes evidenciaram proteção renal importante. O estudo FLOW, interrompido precocemente por benefício inequívoco, mostrou redução de 24% na progressão de doença renal crônica em pacientes diabéticos tratados com semaglutida. Esses achados são particularmente relevantes para o Brasil, onde diabetes e hipertensão representam as principais causas de doença renal terminal.
A ANVISA já ampliou as indicações de bula de alguns análogos de GLP-1 para incluir redução de risco cardiovascular em pacientes específicos. A incorporação desses medicamentos no SUS, entretanto, ainda é limitada, restringindo-se a casos de diabetes tipo 2 inadequadamente controlado com metformina. Sociedades médicas têm pressionado o Ministério da Saúde para ampliação do acesso, considerando a relação custo-efetividade favorável quando se considera prevenção de eventos cardiovasculares e renais.
Na prática clínica privada, cardiologistas e nefrologistas já prescrevem análogos de GLP-1 para pacientes não diabéticos com alto risco cardiovascular ou doença renal, baseando-se nas evidências científicas disponíveis. A abordagem representa mudança de paradigma: de medicamentos para doenças específicas para terapias que modificam múltiplos fatores de risco simultaneamente.
Especialistas alertam, contudo, para a necessidade de seleção criteriosa de pacientes e monitoramento adequado. Efeitos adversos gastrointestinais são comuns no início do tratamento, e casos raros de pancreatite e complicações biliares foram reportados. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que a prescrição seja feita por médicos familiarizados com a classe medicamentosa.
O cenário aponta para consolidação dos análogos de GLP-1 como pilares terapêuticos na abordagem integrada de síndromes metabólicas e cardiovasculares, representando uma das mais importantes inovações farmacológicas da última década na medicina cardiovascular e metabólica.
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