
Dr. Antonio Moreira Vieira
Publicado em 28 de maio de 2026
Em decisão histórica publicada neste mês, o Ministério da Saúde incorporou ao Sistema Único de Saúde a primeira terapia de células CAR-T para tratamento de leucemia linfoblástica aguda de células B refratária ou em recidiva. A tecnologia representa um dos maiores avanços em oncologia das últimas décadas e estava disponível até então apenas na rede privada ou em protocolos de pesquisa.
A terapia CAR-T consiste na modificação genética de linfócitos T do próprio paciente para reconhecer e atacar células cancerígenas. O processo envolve coleta de células do paciente, modificação em laboratório especializado e reinfusão após condicionamento quimioterápico. Estudos internacionais demonstram taxas de remissão completa superiores a 80% em pacientes pediátricos e adultos jovens sem outras opções terapêuticas.
A incorporação foi aprovada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) após análise de custo-efetividade e impacto orçamentário. Inicialmente, seis centros de referência em oncologia nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste estarão habilitados para realizar o procedimento, com previsão de 500 tratamentos anuais. A meta é expansão progressiva conforme infraestrutura e capacitação de equipes.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) coordenará o programa nacional, estabelecendo critérios de elegibilidade, protocolos de segurança e sistema de monitoramento de resultados. Pacientes com leucemia linfoblástica aguda que não responderam a pelo menos duas linhas de tratamento convencional ou que recidivaram após transplante de medula óssea terão prioridade no acesso.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (SOBOPE) celebrou a decisão, destacando que crianças e adolescentes brasileiros finalmente terão acesso a uma terapia que já salvou milhares de vidas em países desenvolvidos. A entidade alerta, contudo, para a necessidade de estrutura hospitalar adequada para manejo de efeitos adversos graves, como síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade.
O tratamento exige internação em unidades de terapia intensiva preparadas para complicações imunológicas, além de equipes multidisciplinares treinadas. Os centros habilitados passaram por rigoroso processo de certificação, incluindo vistorias da ANVISA e comprovação de experiência em transplante de medula óssea e terapia celular.
Especialistas estimam que a incorporação da CAR-T ao SUS represente investimento anual de aproximadamente 150 milhões de reais, valor considerado justificável pela gravidade dos casos elegíveis e ausência de alternativas eficazes. A tecnologia também abre caminho para futuras incorporações de imunoterapias celulares para outros tipos de câncer, incluindo linfomas e mieloma múltiplo, atualmente em avaliação pela CONITEC.
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