
Dra. Yasmin Andrade Macedo
Publicado em 01 de junho de 2026
O Sistema Único de Saúde brasileiro deu um passo histórico ao incorporar a terapia com células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) no tratamento de pacientes com leucemia linfoide aguda e linfomas de células B refratários. A tecnologia, considerada uma das maiores revoluções da oncologia nas últimas décadas, estava disponível apenas na rede privada ou em ensaios clínicos.
A terapia CAR-T funciona coletando linfócitos T do próprio paciente, que são geneticamente modificados em laboratório para reconhecer e destruir células cancerígenas. Após multiplicação em cultura, essas células reprogramadas são reinfundidas no paciente, atuando como um "exército" personalizado contra o tumor. Segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, as taxas de remissão completa em casos refratários podem superar 80% em determinados perfis de pacientes.
Atualmente, seis centros de referência em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Porto Alegre estão credenciados pela ANVISA para produzir e aplicar a terapia. O Ministério da Saúde estabeleceu critérios rigorosos de elegibilidade: pacientes pediátricos e adultos até 25 anos com leucemia linfoide aguda de células B em segunda recidiva ou refratária, e adultos com linfoma difuso de grandes células B que não responderam a pelo menos duas linhas de tratamento.
O processo é complexo e requer infraestrutura especializada. Após coleta por aférese, as células são enviadas a laboratórios certificados em Boas Práticas de Fabricação. O período de manipulação genética e expansão celular leva aproximadamente quatro semanas. Durante a infusão e período subsequente, pacientes permanecem internados em unidades de terapia intensiva oncológica, pois efeitos adversos como síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade exigem monitoramento rigoroso.
O custo elevado - estimado entre R$ 1,5 e 2 milhões por tratamento - levanta debates sobre sustentabilidade. Especialistas em gestão em saúde pública argumentam que, apesar do investimento inicial alto, a terapia pode ser custo-efetiva ao evitar hospitalizações prolongadas e tratamentos paliativos contínuos.
O CFM orienta que a indicação de CAR-T seja discutida em comitês multidisciplinares de oncologia, garantindo seleção adequada de pacientes e consentimento informado detalhado sobre riscos e benefícios. Para famílias, a chegada dessa tecnologia ao SUS representa esperança renovada em casos anteriormente considerados sem opções terapêuticas.
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