
Dra. Larissa Teixeira Pereira
Publicado em 30 de maio de 2026
O Sistema Único de Saúde alcançou marco histórico com a incorporação da terapia com células CAR-T para tratamento de leucemia linfoblástica aguda (LLA) em pacientes pediátricos e adultos jovens com doença refratária ou recidivada. A tecnologia, que representa uma das mais avançadas fronteiras da medicina de precisão, torna-se acessível através de produção nacional em parceria público-privada.
As células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cells) são linfócitos do próprio paciente geneticamente modificados em laboratório para reconhecer e destruir células cancerígenas. O processo envolve coleta de células por aférese, modificação genética para expressar receptor específico contra antígeno CD19, expansão em cultura e reinfusão no paciente após quimioterapia de condicionamento.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) e o Hospital das Clínicas da USP foram credenciados como centros de referência para produção e aplicação da terapia. Até maio de 2026, 47 pacientes já receberam tratamento, com taxa de resposta completa de 68% em 30 dias, resultados comparáveis aos reportados em estudos internacionais.
A leucemia linfoblástica aguda representa cerca de 25% dos cânceres pediátricos no Brasil. Embora a maioria dos pacientes alcance remissão com quimioterapia convencional, aproximadamente 15-20% apresentam doença refratária ou recaída, situações com prognóstico historicamente reservado. Para este subgrupo, a terapia CAR-T oferece possibilidade real de cura quando outras opções se esgotaram.
A CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) aprovou a incorporação após análise de estudos clínicos demonstrando sobrevida global superior a 60% em 12 meses, comparada a 20-30% com tratamentos convencionais de resgate. A produção nacional reduziu custos significativamente em relação à importação, viabilizando a disponibilização pelo SUS.
Desafios técnicos e logísticos são consideráveis. A produção requer instalações com nível de biossegurança adequado e equipe altamente especializada. O processo completo, da coleta à reinfusão, leva aproximadamente 4-6 semanas. Durante este período, o paciente necessita de suporte clínico para controle da doença e manutenção de condições adequadas para receber a terapia.
Efeitos adversos potencialmente graves incluem síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade, exigindo monitoramento intensivo em unidades especializadas. Protocolos nacionais foram desenvolvidos para manejo destas complicações, baseados em experiência internacional e adaptados à realidade brasileira.
O CFM estabeleceu requisitos para credenciamento de centros e qualificação de equipes, incluindo hematologistas, oncologistas, intensivistas e equipe multidisciplinar treinada. A rastreabilidade completa do processo, desde coleta até follow-up de longo prazo, é mandatória conforme regulamentação da ANVISA.
A expansão futura prevê incorporação de CAR-T para linfomas e mieloma múltiplo, além de desenvolvimento de terapias direcionadas a outros antígenos tumorais, consolidando o Brasil entre os países com capacidade de produção e aplicação desta tecnologia revolucionária.
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