
Dra. Fernanda Pires Costa
Publicado em 31 de maio de 2026
O Brasil deu um passo histórico no tratamento oncológico com a aprovação pela ANVISA da primeira terapia de células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) desenvolvida e produzida em território nacional. A tecnologia, que modifica geneticamente as células de defesa do próprio paciente para combater o câncer, estava disponível apenas através de importação a custos proibitivos ou em ensaios clínicos restritos.
As terapias CAR-T representam uma revolução no tratamento de cânceres hematológicos, especialmente leucemias e linfomas que não respondem a tratamentos convencionais. O processo envolve a coleta de linfócitos T do paciente, modificação genética em laboratório para reconhecer e atacar células cancerígenas específicas, multiplicação dessas células modificadas e reinfusão no paciente. Essas células "treinadas" conseguem identificar e destruir células malignas com precisão sem precedentes.
A produção nacional, resultado de parceria entre instituições de pesquisa brasileiras e laboratórios especializados, reduz significativamente os custos do tratamento e o tempo de espera para os pacientes. Enquanto terapias importadas podem custar mais de dois milhões de reais por paciente, a versão nacional tem previsão de custar cerca de 40% menos, tornando viável a incorporação gradual no SUS para casos específicos.
Segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, aproximadamente 15% dos pacientes com leucemia linfoblástica aguda e linfoma difuso de grandes células B não respondem aos tratamentos padrão ou apresentam recidivas. Para esse grupo, as terapias CAR-T podem representar a diferença entre a progressão fatal da doença e a remissão completa.
Os centros autorizados para aplicação da terapia CAR-T no Brasil precisam atender critérios rigorosos estabelecidos pela ANVISA e pelo CFM, incluindo infraestrutura especializada para manejo de possíveis efeitos adversos graves, como síndrome de liberação de citocinas e toxicidade neurológica. Atualmente, apenas hospitais universitários e centros oncológicos de referência em capitais estão habilitados.
O Ministério da Saúde iniciou discussões sobre protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas para incorporação da tecnologia no SUS, priorizando inicialmente pacientes pediátricos e adultos jovens com leucemia linfoblástica aguda refratária. A expectativa é que os primeiros tratamentos pelo sistema público ocorram ainda em 2026.
Especialistas alertam que, apesar dos resultados promissores, com taxas de remissão completa superior a 80% em alguns estudos, a terapia CAR-T não é isenta de riscos e requer acompanhamento multidisciplinar rigoroso. A seleção adequada de pacientes e o momento ideal de indicação são cruciais para o sucesso do tratamento.
A OMS incluiu as terapias celulares em sua lista de tecnologias essenciais emergentes, reconhecendo seu potencial para transformar o panorama do tratamento oncológico globalmente, especialmente quando associadas a esforços de produção local e redução de custos.
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