
Dra. Larissa Pereira Tavares
Publicado em 30 de maio de 2026
Medicamentos agonistas do receptor GLP-1, inicialmente desenvolvidos para diabetes tipo 2 e obesidade, emergem como promissora alternativa terapêutica para dependência química. Ensaios clínicos publicados em 2026 demonstram redução significativa no consumo de álcool e substâncias psicoativas em pacientes tratados com semaglutida e tirzepatida.
Pesquisadores da Universidade de São Paulo coordenaram estudo multicêntrico envolvendo 340 pacientes com transtorno por uso de álcool, observando redução média de 62% no consumo semanal de bebidas alcoólicas após 24 semanas de tratamento com semaglutida. O mecanismo proposto envolve modulação de circuitos cerebrais de recompensa, particularmente no núcleo accumbens e área tegmental ventral.
A Associação Brasileira de Psiquiatria manifestou interesse cauteloso nos resultados, ressaltando que estudos adicionais são necessários antes de incorporação às diretrizes terapêuticas nacionais. Especialistas enfatizam que esses medicamentos não substituem abordagens psicoterapêuticas e suporte psicossocial, componentes essenciais no tratamento de dependências.
Ensaios internacionais também investigam eficácia dos agonistas GLP-1 em dependência de opioides, cocaína e nicotina, com resultados preliminares encorajadores. No Brasil, onde a epidemia de crack e cocaína representa grave problema de saúde pública, essas terapias podem oferecer nova ferramenta para profissionais que atuam em Centros de Atenção Psicossocial.
A ANVISA ainda não aprovou indicação de agonistas GLP-1 para tratamento de dependência química, mantendo registro exclusivo para diabetes e controle de peso. Médicos que prescrevem essas medicações off-label para dependências devem documentar criteriosamente a indicação e obter consentimento informado detalhado do paciente.
Um desafio significativo é o custo elevado desses medicamentos, com tratamento mensal podendo ultrapassar dois mil reais. Sociedades médicas têm pressionado o Ministério da Saúde e operadoras de planos de saúde para avaliar incorporação dessa indicação, considerando potencial impacto em saúde pública e redução de custos associados a complicações de dependências.
Efeitos adversos mais comuns incluem náuseas, vômitos e desconforto gastrointestinal, geralmente transitórios. Médicos devem monitorar função pancreática e estar atentos a sinais de pancreatite, contraindicação absoluta para continuidade do tratamento.
A comunidade científica brasileira acompanha com atenção resultados de estudos fase III em andamento, que devem fornecer evidências robustas sobre segurança e eficácia em longo prazo. Caso confirmados os benefícios, essa classe de medicamentos pode revolucionar tratamento de transtornos aditivos, condições historicamente desafiadoras na prática clínica.
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