
Dra. Heloisa Borges Monteiro
Publicado em 29 de maio de 2026
A tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), que revolucionou as vacinas contra COVID-19, agora avança no tratamento de câncer no Brasil. Em maio de 2026, a ANVISA aprovou três terapias oncológicas baseadas em mRNA personalizado, desenvolvidas especificamente para perfis tumorais de cada paciente, marcando uma nova era na oncologia de precisão brasileira.
As terapias aprovadas destinam-se a pacientes com câncer de pâncreas metastático, melanoma avançado resistente a imunoterapias convencionais e câncer colorretal com mutações específicas. Diferentemente da quimioterapia tradicional, os tratamentos com mRNA instruem as células do próprio paciente a produzir proteínas que combatem o tumor ou estimulam resposta imunológica direcionada.
O processo de tratamento inicia com biópsia tumoral e sequenciamento genético completo, identificando mutações específicas do câncer do paciente. Esses dados são enviados a laboratórios especializados que sintetizam mRNA personalizado em até 15 dias. O material é administrado via injeção, geralmente associado a imunoterapias, em protocolos que variam de 6 a 12 aplicações.
Estudos clínicos internacionais que embasaram a aprovação brasileira demonstraram resultados promissores. Em pacientes com melanoma avançado, a terapia combinada de mRNA personalizado com imunoterapia aumentou a sobrevida livre de progressão em 44% comparada ao tratamento padrão. Para câncer de pâncreas, historicamente resistente a tratamentos, houve aumento de 34% na sobrevida global em 18 meses.
A Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC) recebeu a aprovação com entusiasmo, mas pondera sobre desafios de acesso. O custo estimado do tratamento completo varia entre R$ 280 mil e R$ 450 mil, valores ainda proibitivos para a maioria dos brasileiros. Negociações estão em curso para inclusão gradual no rol da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e em protocolos específicos do SUS.
Cinco centros oncológicos brasileiros já se credenciaram para oferecer as terapias: três em São Paulo, um no Rio de Janeiro e um em Porto Alegre. A infraestrutura necessária inclui laboratórios de sequenciamento genético de alta complexidade e câmaras frias para armazenamento do mRNA, que é altamente instável.
Especialistas alertam que nem todos os pacientes são candidatos. As terapias funcionam melhor em tumores com alta carga mutacional e em pacientes com sistema imunológico preservado. A seleção criteriosa é essencial para otimizar resultados e justificar os custos elevados.
O Ministério da Saúde anunciou a criação de um programa-piloto para avaliar viabilidade de produção nacional de mRNA terapêutico, em parceria com instituições de pesquisa como a Fiocruz e o Instituto Butantan. A iniciativa pode reduzir custos e ampliar acesso a essas tecnologias promissoras nos próximos cinco anos.
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