
Terapias com RNA mensageiro expandem para oncologia e doenças raras
Dr. Caio Dias Moraes
Publicado em 31 de maio de 2026
A tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), que revolucionou a vacinação durante a pandemia de COVID-19, está inaugurando uma nova era terapêutica no Brasil em 2026. A ANVISA aprovou recentemente os primeiros ensaios clínicos nacionais de vacinas terapêuticas personalizadas baseadas em mRNA para pacientes com melanoma avançado e adenocarcinoma colorretal metastático, marcando a entrada do país na vanguarda da medicina de precisão oncológica.
Diferentemente das vacinas preventivas, essas terapias utilizam sequenciamento genético do tumor de cada paciente para identificar mutações específicas (neoantígenos) e produzir mRNA que instrui células do sistema imunológico a reconhecer e atacar exclusivamente as células cancerígenas. O processo, que antes levaria meses, agora pode ser concluído em 4 a 6 semanas graças a plataformas de bioinformática e produção automatizada instaladas em São Paulo e Campinas.
O Instituto Nacional de Câncer (INCA) coordena um estudo multicêntrico envolvendo 200 pacientes brasileiros com melanoma estágio III e IV, em parceria com fabricantes internacionais de terapias de mRNA. Resultados preliminares apresentados no Congresso Brasileiro de Oncologia em março mostraram redução de 44% no risco de recorrência quando a vacina terapêutica é combinada com imunoterapia convencional, dados consistentes com estudos internacionais.
Além da oncologia, a tecnologia de mRNA está sendo adaptada para tratamento de doenças raras genéticas prevalentes no Brasil. Pesquisadores da UNICAMP desenvolvem terapias de reposição enzimática baseadas em mRNA para mucopolissacaridoses, condições que afetam aproximadamente 1 em cada 25.000 nascidos vivos no país. A abordagem oferece vantagens sobre terapias proteicas convencionais, incluindo produção mais rápida, menor imunogenicidade e potencial para administração menos frequente.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC) já iniciou discussões sobre critérios para futura incorporação de terapias de mRNA, considerando desafios de custo-efetividade e logística de cadeia fria. O Ministério da Saúde sinalizou interesse em desenvolver capacidade nacional de produção através de Bio-Manguinhos e Instituto Butantan, reduzindo dependência de importações e tornando essas terapias revolucionárias acessíveis à população brasileira.
Especialistas do Conselho Federal de Medicina enfatizam que, apesar do entusiasmo justificado, as terapias de mRNA ainda requerem mais evidências de longo prazo sobre segurança e eficácia. Médicos e pacientes devem manter expectativas realistas, reconhecendo que a tecnologia representa mais uma ferramenta importante, mas não uma solução milagrosa para todas as condições.
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